O Jogo de Contratações




História do Jogo de Contratações de TI

Como esse jogo foi desenvolvido? Quanto tempo levou? Como notou a necessidade de desenvolver outras técnicas de ensino? Como o jogo funciona? Quais os resultados de ensinar com o jogo?

Por Antonio Netto

Tudo começou com a quantidade de feedbacks de treinamentos anteriores, onde os alunos entendiam que os cursos eram muito teóricos, densos e difíceis de entender e a prática, apesar de existir, era difícil e longa. Antes de virar um jogo a história era uma peça teatral, que relatava abusos e erros na relação servidor x chefia imediata.

Em 2013 eu terminei meu mestrado pela UnB e já iniciei o doutorado. Estudei Cloud Computing e SOA (Service Oriented Architecture) durante 1 ano. São temas muito técnicos e que eu particularmente precisava me dedicar muito mais do que eu podia. Eu estava em busca de algo mais divertido, que fosse mais tangível, rápido e fácil, próximo do tema de Contratações de TI, que fosse aplicado na minha realidade da qual eu trabalhava no meu órgão (eu tinha metas muito rigorosas para entrega de processos de aquisição). Em novembro de 2014, eu participei de um treinamento em formato de jogo, do assunto “Governança de TI” do Professor João Souza Neto, da Universidade Católica de Brasília e da Servidora Diana Leite Nunes, da Procuradoria Geral da República. Gostei muito do jogo e durante ele já imaginava uma possibilidade de criar um jogo para o tema de contratações de TI. Mas o tema era muito vasto, complexo, e não bastava pegar o modelo do jogo de Governança, copiar e aplicar. Então tive a ideia de pedir o apoio do Professor João Souza Neto e da Diana Leite Nunes, e iniciarmos uma parceria.

Ela iniciou em Janeiro de 2015. Até Maio de 2015, fizemos vários protótipos, mas descobri que esse jogo só iria sair se eu estudasse ainda mais sobre: Contratações de TI, Gamificação, Gestão de Pessoas e Conflitos, Coaching, Designer, Jogos de Tabuleiro e Relações de poder. O jogo me fez perceber que eu tinha que criar um novo caminho. Eu tinha duas escolhas. Jogar este jogo ou desistir.

Iniciei uma maratona de entrevistas com especialistas, leitura de livros, palestras, filmes, vídeos do youtube. Joguei mais de 100 tipos de jogos de tabuleiro e online diferentes para conhecer as mecânicas e possibilidades. Fiz uma formação em São Paulo em Coaching, aprendi sobre neurociência. Atendi clientes e as coisas começaram a fazer sentido. Eu documentava tudo que achava que podia ser útil. Em pouco mais de dois meses, minha rotina era de dormir 5h por dia, criando durante as madrugadas, o Jogo de Contratações de TI. Eu não estava nem um pouco cansado. Eu acordava para anotar algumas ideias que viam. Nunca me vi tão empolgado. Cada dia sentia mais energia para ver o jogo funcionando. O jogo mudava completamente em menos de 24h.

Quando finalmente ele ficou pronto (na minha cabeça) eu fui testá-lo. Mas na primeira tentativa, o jogo não estava bom.  Recebi aproximadamente 20 pontos de melhoria no jogo (melhorias que alteravam toda estrutura). Do jeito que recebi as críticas, já começava a atuar na solução dos problemas, no mesmo dia. Percebi então, que precisava colocar o Jogo para ser criticado por mais pessoas, pois isso seria bom para evolução da ideia. Convidei os amigos Jorge Júnior e Manoel Quinzeiro para críticas. Eles fizeram com maestria, e foi difícil sair com 3 páginas de “ajustes”, após uma apresentação em um almoço. Do formato do tabuleiro a qualidade das cartas, eu havia imaginado que tinha entrado em um projeto sem fim e perdido muito tempo com algo que não podia dar certo. Sai muito preocupado, mas sabia qual era a missão. Realizei todos os ajustes. Eles me disseram que aquilo seria para o bem do projeto. Eu acreditei.

Após 1 mês de ajuste, gráfica, investimentos (apostas)… Testei em uma turma piloto, que aceitou conhecer o jogo, em substituição a um exercício. Eu parecia estar sonhando… As críticas, pude contar nos dedos. Os elogios, me emocionaram ao final, quando todos foram embora. E então, abri o jogo para o mercado, já sabendo que ele não teria fim. E essa era a melhor notícia. Pois daquele teste em diante, o jogo não poderia ser mais de minha autoria. E sim dos participantes, que proveem feedbacks cada vez melhores e fazem do jogo uma experiência completamente diferente, quando falamos de Contratações de TI.

Hoje o Jogo já rodou em 15 turmas, por 3 estados. No Executivo e no Judiciário, tanto com a Instrução Normativa 04/STI/MP, Tanto com a Resolução 182 CNJ e Resolução 102 CNMP. Aproximadamente 250 pessoas já vivenciam a experiência, com aproximadamente 5 meses deste a versão de lançamento, em Outubro de 2015. A brincadeira conta com um Plano Diretor de TI com um valor de R$ 500.000,00, 4 contratações estratégicas, 4 Organizações Públicas, Fornecedores (Idôneos e Inidôneos), Lobistas (pessoas que atrapalham o dia a dia da organização), TCU, CGU, Tesouro Nacional, dentre outros. Conta com vários recursos que permitem o jogo ficar altamente competitivo, com muitas chances de se decidir na última rodada, garantindo muita emoção.

Há um vídeo inicial que mostra a batalha que tive com este tema, experiência que me deu ainda mais força para ajudar outros gestores a não passar pelos problemas que eu passei. Os grupos podem fazer pressão para os outros times e ainda questionar o gabarito. Se convencer e fundamentar, derrubando o argumento da carta, o jogador ganha emblemas e reconhecimentos personalizados. Essa sistemática, permite que o jogo evolua muito mais rápido e valorize quem tem experiências que enriquecem o tema e futuros jogadores.

Vence o Jogo o time que conseguir contratar mais itens do PDTI. O critério de desempate é quem salvar mais orçamento, durante as perguntas, que envolvem o cenário prático de Planejamento da Contratação, Seleção do Fornecedor e Gestão do Contrato. A equipe vencedora leva o Prêmio “Eficácia nas Contratações de TI”, com direito a troféu e cerimônia de premiação, para valorizar os gestores.

O principal resultado que temos com um jogo é o engajamento e comprometimento. Por meio dos formulários de feedback, que geraram estatísticas importantes para confirmar que iremos continuar com este projeto, fica fácil perceber que o jogo traz uma leveza para um tema denso e amplo. É com o jogo, que os alunos podem conhecer todo processo, personagens, relações de poder, tomada de decisão, liderança e ter uma visão geral, além de e aplicar os conhecimentos específicos, com o permissionamento para o erro honesto e aprender com ele. No cenário real, um erro pode significar uma multa para o servidor, um acórdão, uma exposição a mídia para o órgão. Por isso, minha sugestão é: Vamos jogar, para diminuir os erros. Brincadeira tem hora e a hora é antes dos problemas chegarem. A coisa pode ficar séria depois e o jogo é outro.

Dar aula nesse cenário se tornou muito mais interessante, leve e intenso. O sorriso dos alunos diz tudo. O projeto me deixou tão satisfeito que desenvolvi um framework para elaboração de jogos e treinamentos com o mesmo formato. A cada aplicação, geramos mais ideias para jogos inéditos e melhorias dos atuais. Virou um jogo viciante, criar outros treinamentos no formato de game.